CINEMA, CULTURA, ARTES e RESISTÊNCIA em MOVIMENTO

Tururu Cine, Comunidade Angicos de baixa, Ceará 2018

Tururu Cine, o projeto itinerante da curadora suíça Nora Hauswirth, iniciou em Fortaleza em novembro 2017 com a ideia de levar arte e cinema para pequenas comunidades nordestinas e nortistas. É um projeto de coleta e exibição de material artístico, livre para ser redesenhado a cada novo lugar. Na viagem com uma kombi por cinco estados brasileiros – Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas – foram realizadas até fim de 2019 mais de 160 apresentações em comunidades rurais e bairros urbanos. Fotografias, músicas, filmes e documentários sobre a conscientização dos impactos humanos no meio ambiente e histórias que fortalecem a luta e unem as pessoas em busca da cidadania plena e igualdade social, fazem parte do programa do Tururu Cine. A ideia é a construção de um espaço de diálogo democrático, envolvendo a própria realidade concreta dessas comunidades na sua dimensão cultural, ambiental, política e social.

Na viagem, as apresentações foram feitas em lugares encontrados pelos caminhos, como na transamazônica, no litoral maranhense ou nos interiores do Ceará. A kombi utilizada, além de servir como moradia, quando apoia um tecido branco também se transforma em tela. Várias apresentações foram realizadas em parceria com ONG’s e instituições locais, como o Instituto Antônio Conselheiro, Cáritas, CPT e ICMbio. No ano de 2019, o projeto foi apoiado pela embaixada da Suíça realizado junto com o artista Manoel Souza. Entre outros, foram exibidos o curta animado “Ta Limpo”, de Christina Koenig, sobre aproveitamento de resíduos sólidos, a ficção “Para’í” de Vinicius Toro, que conta a história de uma menina guarani que encontra sementes crioulas de milho e reflete sobre a vida na cidade; o curta “Plantae”, de Guilherme Gehr, sobre desmatamento da Amazônia; “Life in Syntropy” de Agenda Gotsch, sobre agroflorestas como agricultura alternativa; e a animação “Abuela Grillo”, de The Animation Workshop, a respeito da luta contra a utilização da água como mercadoria.

A gente já vinha nesta pratica de guardar nossas próprias sementes, seja em lata, seja em garrafa. Então não há nisso dependência do mercado.

Filme AS SEMENTES do Beto Novaes e Cleisson Vidal

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O arco do desflorestamento amazônica no sudoeste paraense

As carvoarias na saída da cidade Tucuruí, Pará

Tururu Cine na Resex Ipaú-Anilzinho: Comunidade Anilzinho, Escola km 80, Joana Peres, Santa Rosa, Espirito Santo e na reserva da Comunidade Indígena Trocatá de Suruni  Tururuí (Pará, 2019) com apoio da Embaixada da Suíça – Edital 2019 gestão do lixo

No fim da tarde dirigimos pela estrada de terra esburacada em direção a Resex Ipaú-Anilzinho, ao norte do Tucuruí, no município de Baião. Já na margem da cidade vem ao nosso encontro caminhões madeireiros. A poeira da estrada se mistura com a fumaça embaçada das carvoarias na beira da estrada. E difícil de definir se também há fogo de desmatamento, tudo é nebuloso. Paramos, os carvoeiros, adolescente e aposentados, empilhando a madeira nos fornos redondos, ensacando o carvão, sem máscara, os corpos sujos de preto. Os meses passados, foram fechadas várias serrarias e carvoarias na Trans-Cambeta por conta do trabalho análogo a escravidão empregada. 

“É um bom negócio para uma empresa, quando se foge dos impostos, explorando a mão de obra quando não são pagos os salários e não são cumpridas as leis ambientais”; informa o Hilário, da comissão pastoral da terra (CPT), uma organização fundada em 1975, em uma época na qual o governo quis povoar a “terra sem povo”, ignorando a população indígena existente.  As atividades madeireiras e o desmatamento – quase a metade dele realizado de forma ilegal – é uma das intervenções humanas que mais prejudica a sustentabilidade ambiental na região. As principais causas regionais são a criação de gado, monoculturas, obras de infraestrutura, atividades madeireiras e a grilagem de terras.  

Desde esse ano fazendeiros começaram a matar a floresta com o agrotóxico vindo do sudoeste do Pará nas regiões de Tucuruí, Marabá e Breu Branco para desmatamento, para plantar capim e cuidar do gado ou outros monocultivos. Com uso do “Pó da China” e “Agente Laranja” pode se livrar da área ocupada de forma mais rápida e barata.  

Porém, a maioria dos produtores derrubam e tocam fogo por falta de conhecimento sobre outras técnicas de plantio. Dentro da Resex, as queimadas deveriam ser eliminadas por questões ambientais, mas dia a dia a preparação da roça parece mais prática para os pequenos produtores com a utilização dessa técnica. Eles ignoram que se perde muito da vida da terra quando esta é queimada constantemente. No mês de outubro queimaram as capoeiras para cultivar a plantação dominante da região, a mandioca. Por segurança, os fogos serão coordenados pelo ICMBio. A mudança para plantações mais sustentáveis, como as agroflorestais, se complica também porque as agências dos bancos não favorecem créditos do PRONAF floresta, regularmente pedidos de projetos estão sendo ignorados, informa Hilário do CPT, Comissão Pastoral da Terra. 

Pela iniciativa dos povoados tradicionais como o quilombola Anilzinho e a comunidade Joana Peres a Resex Ipaú-Anilzinho foi criada em 2005 com o objetivo de proteger o estilo de vida e a cultura das populações e o uso sustentável dos recursos naturais. A comunidade Joana Peres tem 243 anos de resistência, Anilzinho provavelmente tem a mesma idade. Muitos ainda sobrevivem da pesca artesanal e da venda dos produtos agrícolas, como a farinha e a polpa de cupuaçu, cação, etc. Antigamente, os povos indígenas da região entravam em suas roças, conta Seu José Miranda, um dos moradores. 

Na comunidade de Anilzinho foi realizada a apresentação cinematográfica em um local aberto entre a igreja católica e evangélica.

Na comunidade Joana Peres a apresentação foi realizada na praça central com mais que 200 participantes, junto com Eva e Ceará que realizam sessões de cinema de vez em quando para as crianças.

Um exemplo de produção diversificada é o sitio do seu Maribondo, na margem do povoado Espírito Santo, onde predomina a criação do gado e as atividades madeireiras. A terra produz quase de tudo: arroz, feijão, milho, açaí, goma, farinha, cação, castanha, manga, laranja, limão, mel, porco, boi, peixe e galinha para o próprio consumo. A terra dá grandes quantidades de bananas, que são quase todas vendidas, a cada semana 3-4 caixas são dadas para os porcos. Quando Seu Maribondo veio para essa região com o pai dele, fazia o que tudo mundo fazia: desmatar e criar gado. Num ano de seca ele mudou a estratégia totalmente, a criação do boi não teve mais futuro, ele queria plantar espécies frutíferas em cultivos mistos. A formação dos filhos em agricultura e técnicas agroflorestais fortaleceu essa caminhada de sucesso e felicidade de hoje com muita abundância e fartura.   

O povoado Santa Rosa, 15 km ao norte do Anilzinho, abriga 15 famílias em uma área de uma antiga fazenda. Cada semana Dona Rosa e o vizinho Maurício – os primeiros moradores daqui – vão no ônibus para a cidade para vender os produtos agrícolas deles, farinha, tapioca, ovos, galinhas, frutas e verduras da época. No período da seca, a produção fica pouca por falta de sistemas de irrigação ou cobertura vegetal da terra – o poço artesiano não possui quantidade suficiente para molhar a plantação. Os outros moradores produzem só para o próprio consumo e são mais ligados nas atividades madeireiras. A antiga fazenda foi povoada há 14 anos. Só há 2 meses possui energia elétrica. Baterias foram recicladas no pé das bananeiras.

As crianças do sítio vizinho vão de jumento para a pequena escola no km 80, onde estudam cerca de 10 crianças da região em uma pequena barraca de madeira com uma sala e um professor para 4 turmas. Tivemos a possibilidade de passar durante as aulas um dos filmes curta-metragem sobre a questão do lixo e meio ambiente.  

A Comunidade Espírito Santo fica na beira da estrada Trans-Gameta, onde a maioria dos moradores trabalha com criação de gado ou atividades madeireiras.

Na fronteira agrícola amazônica no nordeste paraense

Serraria que foi fechado em Campos Belo pelo IBAMA, Setembro 2019

Tururu Cine nas comunidades São Raimundo Nonato Anoerasinho, Vila do Breu na região Quatro Bocas/Tomé-Açu, e Campos Belo, Vila Aparecida, Vila Jatuba na região Goianésia (Pará, 2019) com apoio da Embaixada da Suíça – Edital 2019 gestão do lixo

Terras desertas, áreas descampadas da soja ou milho, florestas de eucalipto no horizonte, uma fazenda com nome “export” no rio gringo, quilômetro por quilômetro plantações de dendê. Assim que se apresenta as margens da estrada chegando na cidade Tomé-Açu, na fronteira agrícola amazônica.

O mundo real e virtual quase se choca quando assistimos na Vila do Breu na PA 256 o filme sobre desmatamento ao passar caminhões carregando troncos de árvores enormes para uma das 6 serrarias de Tomé-Açu, onde teve antigamente umas 30 serrarias. Os transportes ilegais se aproveitam da escuridão da noite e da falta de fiscalização. Assim eles contribuem para a destruição da floresta amazônica.

Em Tomé-Açu chegaram 90 anos atrás os imigrantes japoneses e fundaram a primeira cooperativa de hortaliças do amazônia – hoje conhecido como CAMTA, referência de produção agroflorestal. Depois dos japoneses, chegaram famílias do Brasil todo, Bahia, Ceará, Maranhão, uma das cidades é Cameta. A maioria das terras está nas mãos dos japoneses, os moradores das comunidades vizinhas trabalham nas terras deles.

Os japoneses produziam arroz e hortaliças para o próprio consumo e a comercialização em Belém, na época a viagem fluvial durava cerca de 20 horas no rio Acará-Miri com barcos que os imigrantes tinham construídos. A venda era difícil, pois não havia o costume de consumo das variedades produzidas. Nos anos 1930, Dr. Makinosuke Usui trouxe pimenta do reino do Singapura, dois pês cresceram. Nos anos 1950 depois do segundo guerra mundial o polo Tomé-Açu foi o maior produtor nacional do diamante preto. Porém, nos anos 1960 as pragas atacam monoculturas enormes. Para melhorar a terra, os produtores começaram nos anos 1970 com as técnicas agroflorestais.

Uma produção de referência é encontrada na fazenda de Michinori Konagano. Ele comprou em 1978 a primeira área de produção e plantou pimenta de reino, com cacau, mogno, açaí, abóbora, melancia e feijão tudo junto. Os japoneses tinham observado os ribeirinhos nas margens dos rios com quintais ricos em frutas. Na área do Michinori, além do adubo natural são usadas substancias químicas. São áreas com produção muito alta, mas sempre em harmonia o tripé: economia, o social e o meio ambiente. Há 230 hectares de agrofloresta que sustenta 50 famílias das comunidades da região.

Michinori Konagano é produtor agrícola, cultivando 230 ha em sistemas agroflorestais em Tomé-Açu

Michinori esta sempre promovendo sistemas agroflorestais e apoiando as comunidades da região, como a comunidade São Raimundo, onde moram 35 famílias em lotes. Fizemos uma noite de cinema, junto com a Associação dos Produtores da 4.a região. A “mini associação” reuni 13 produtores, a maioria produzindo com sistemas agroflorestais. Conhecemos Edvino e Vera que fazem enxertos para acelerar a produtividade e vendem mudas de cupuaçu, laranjas, e outras espécies. Fizemos uma troca de sementes crioulas.

Goianésia, 250 km de distância tornou-se uma das maiores produtoras de madeira semi-beneficiada de toda a região norte, abastecendo a demanda do mercado internacional e do centro-sul brasileiro. Desde a crise de 2005 o município sofre com dificuldades econômicas. Há 40 anos, ainda era floresta fechada, 20 anos depois, fazendeiros compraram as terras já sem árvores.

O povoado de Campos Belos está situado na beira da estrada entre Tailândia e Goianésia do Pará, numa pequena área doada por um fazendeiro anos atrás, é cercada de terra, deserto e campos. O povoamento veio com a exploração de madeira, duas semanas atrás uma das duas últimas serrarias foi fechada por atividades ilegais. A comunidade sobrevive da madeira. Porém, as florestas há 12 km da comunidade não podem ser desmatadas mais. Fizemos uma noite de cinema na escola com participação da comunidade toda, mostrando os filmes sobre as agroflorestas que podiam ser uma alternativa para trabalhar a terra no futuro.

Seguimos na estrada para Goianésia. Os moradores da Vila Aparecida chagaram há 35 anos em busca de madeira e terra para exploração. O carvão foi vendido para as metalúrgicas grandes que haviam na época. Depois os órgãos relacionados com a pauta do meio ambiente proibiram as atividades e uma grande parte do povo ficou sem renda. Atualmente, os pequenos fazendeiros vendem as terras para o agronegócio. Diversas pessoas plantam nos quintais para o próprio consumo. Fizemos uma apresentação de cinema na praça principal, junto com a Prof. Eliude que estimula os alunos e produtores locais ao uso de sistemas ecológicas.

Continuamos na estrada para Goianésia, a Vila Jatuba (apelido para o povoado Guaraina) se criou há 40 anos quando o estado deu terra para os trabalhadores. O povoado hoje é localizado entre uma área de fazenda e uma plantação de eucalipto. Hoje vivem umas 45 famílias aqui. Há uma área da comunidade, e cada um possui também terra para plantação. Umas fazem uso, outros não, umas pescam no igarapé, outras caçam. A apresentação de cinema acontecia em baixo de uma árvore no centro da comunidade.

Da Vila Aparecida, entramos 30 km na estrada da terra para o interior, a comunidade Vila Matias, onde vários agricultores produzem para a merenda das escolas e frutas para o supermercado da região.

As ilhas e quilombos de Belém, Pará

Tururu Cine na ilha de Combu, Belém, 2019

Tururu Cine nas comunidades São João Batista, no Assentamento MST Mártires de Abril-Ilha Mosqueiro, no Assentamento Expedito Ribeiro, na Comunidade Piriquitaquara Ilha Combu, na comunidade Boa Vista do Acará e na Ilha de Cotijuba (Pará, 2019) com apoio da embaixada da Suíça – Edital 2019 gestão do lixo

Pelo porto de Belém, chegaram os escravos africanos durante a época de colonização no século XVI. Baseado na exploração do trabalho humano, se formou o primeiro mercado lucrativo da região, o da borracha. Até hoje, em inúmeras fazendas, a escravidão nordestina continua. Humanos sofrem e também a nossa Terra Mãe. Motor desse inferno são as inúmeras fazendas que produzem carnes para os consumidores mundiais, e os governos que ajudam este processo, os quais, deveriam ser responsabilizados pelo grande desmatamento da floresta amazônica, queimada em taxas recorde, assim é destruída uma grande área do pulmão do mundo.

Ao mesmo tempo, são crescentes as atividades agrícolas sustentáveis, como os sistemas agroflorestais (SAFs). Em uma área com proteção do solo por uma cobertura vegetal, são plantadas uma variedade de árvores em conjunto com culturas agrícolas, e com técnicas de manutenção, aumenta-se a quantidade de biomassa.

Cerca de 50 Km de Belém, no município do Santa Bárbara, foi criada há 10 anos a primeira Ecovila do Pará. A comunidade sustentável Ecovila Iandê está situada em uma antiga área de extração de areia, cercada por mata secundária, uma lagoa com nascente e um igarapé. IANDÊ na língua Tupi-Guarani significa “tu”, “você”, o pensar no outro é o primeiro passo para se viver em coletividade. Em várias áreas foram implementadas agroflorestas e hortas ecológicas. Em algumas partes, a terra ainda está dura por ter sido maltratada tanto tempo, mas com manejo e com tempo ela vai se recuperar.

A Ecovila participa da rede CSA (Comunidade que Sustenta Agricultura) e entrega cada semana frutas, verduras, folhas e ovos para 15 famílias. Em dias de mutirão coletivos, as famílias são envolvidas no plantio. Lenicy Maria, fundadora da Ecovila Iandê, estimula os consumidores a terem contato com a terra, mas também os outros produtores locais a aumentar as áreas de agroflorestas.

O Cine Tururu se apresentou nas comunidades com vários filmes curtos, como o curta-metragem Plantae, do francês Guilherme Gehr, sobre as almas das árvores. Um branco com moto-serra corta uma árvore enorme na floresta amazônica. Ao invés de cair, ele sobe ao céu. O filme é uma reflexão sobre as consequências irreversíveis do desmatamento. Mostramos também o filme animado ‘Tá limpo’, de Christina Koenig, sobre a questão de separação do lixo. O Bico, um urubu, conta para seu amigo, o menino Pipoca, sobre uma fábrica que faz coisas novas com coisas usadas. A Comunidade se desfaz de toda sujeira e organiza a coleta seletiva do lixo. As crianças estavam morrendo de rir e observavam com interesse as fotografias apresentadas depois, dos bichos no mar, enrolados no plástico. Se não mudamos nosso consume, vai ter mais plástico que peixe nos oceanos. Apesar de ser próxima da cidade, a maioria das comunidades visitadas não tem carro ou barco de lixo que faça a coleta, os moradores são forçados a queimar o lixo nos quintais. Também não existem possibilidades para reciclar. Algumas pessoas separam o orgânico, o resto todo, plásticos, garrafas pet, latas, baterias, eletrônicos e metais vão junto para queimar ao ar aberto, seja no quintal ou no lixão da prefeitura.

Estamos caminhando para um cenário futurístico, como foi imaginado no filme Wall-E, produzido pela Pixar Animation Studios, que fala sobre a terra cheia de lixo e um robô, deixado na terra para limpar o planeta ao buscar sinais de vida. Nas apresentações do cinema falamos sobre o impacto do lixo perigoso queimado, e a solução de reduzir e reciclar.

Desde a década de 1970 o dendê foi cultivado no Pará em grande escala para a produção de óleo de palma. A empresa Denpasa foi pioneira local nos negócios e ocupava terra do estado em grande escala, porém sem documentação que comprovasse o domínio da terra. Um dia as pragas atacaram as monoculturas e as atividades precisaram ser abandonadas.

A organização dos trabalhadores reunia famílias sem terra: vários assentamentos foram criados. Na antiga fazenda Baiacu, onde funcionava como viveiro de mudas de dendê, foi criada a comunidade Expedito Ribeirinho. Em 2006 os 606 moradores foram divididos em 55 lotes de 10ha de área particular e áreas coletivas. O povoado conta com apenas 100 famílias, mas as distâncias são longas por conta do tamanho dos lotes. As casas são construídas de madeira e cercadas de diversas árvores frutíferas. Várias famílias trabalham com agricultura e a produção de farinha. Através de diversos projetos agroflorestais, e com ajuda do Instituto Flor, Universidade de Tókio e o Fundo Verde, grande parte das áreas foram reflorestadas com árvores utilizáveis, o que garante o desenvolvimento sustentável do assentamento.

Ainda no Município de Santa Bárbara, na estrada para Genipaúba, encontram-se umas casas da comunidade São João Batista. A primeira impressão do tamanho da comunidade estava errada, logo atrás das primeiras casas entrando nos caminhos encontram-se as casas dos filhos e netos. Muitos vivem da agricultura e atribuem importância a uma produção ecológica.

A Ilha do Combu fica nas margens do rio Guamá, quinze minutos da capital paraense. Os ribeirinhos moram em casas de madeira nos igarapés, que são rios estreitos navegáveis por canoas, as únicas rotas pelas ilhas. Devido à proximidade da cidade, muitas famílias não investem mais na agricultura e trabalham fora. Antigamente, eles levavam maxixe, quiabo, macaxeira e frutas para a feira no Porto da Palha. As áreas ainda estão cheias de açaí, andiroba e cacau. Dona Nena produz chocolate no quintal, ela é famosa. Nos fins de semana, visitantes da cidade chegam na loja, compram de 50 a 100 reais, visitam uma parte da produção em um tour rápido por 5 reais e entram no barco que os traz para um dos bares ou restaurantes.

Pouco isolada do fluxo turístico, no furo do paciência, encontra-se a comunidade Piriquitaquara. Dominado pela maré, a água sobe suavemente e desce novamente. Para visitar um vizinho, as pessoas usam canoas, muitas ainda sem motor. Duas mulheres numa canoa vermelha passam. Na noite do cinema, os barcos chegam no escuro, eles atracam no trapiche, na maré baixa.

A Comunidade de Boa Vista do Acará foca na produção de plantas aromáticas para a indústria de cosméticos. Priprioca, cultivada em pequenas monoculturas orgânicas, é uma das várias plantas cultivadas pelos agricultores da associação. É uma raiz aromática nativa da floresta amazônica, que possui um perfume fantástico e afrodisíaco. Na feira do Ver-o-peso, compra-se também como um componente do Cheiro-do-Pará.

São várias comunidades na região que produzem para as empresas Beraca (extração dos óleos) e Natura (produtos de cosméticos). Varios tarrefas são organizados de forma colletivo, por exemplo, cada semana segunda-feira e terça-feira são os dias do serviço comunitário.

A Dona Beth é uma das fundadoras da associação que existe desde 2002. Tudo começou com um projeto de priprioca. Ela lembra do tempo passado, quando ela criou as suas filhas, passou a linha de alta tensão, mas não chegou a energia elétrica na comunidade. Era difícil, a família passou muita fome. No quintal dela não tinha nada. Ela que fez um reflorestamento. Um colega do Mato Grosso trouxe sementes de outras espécies como mogno, parika, andiroba e capitiu e virou uma mata diferente. “Aqui ninguém mexe, porque aqui tudo vale a pena. Quando der sementes, eu já vou plantar de novo.”

Praias de água doce na ilha de Mosqueiro ficam localizadas na região norte de Belém. A ilha foi o lugar, onde teve a primeira fábrica de borracha do Pará e onde os ricos de Belém passavam os finais de semana.

Hoje, a ilha é acessível por uma ponte. No final dos anos 90, na antiga Fazenda Taba, famílias sem terra do MST reuniram-se e lutaram por terras agrícolas. Por quatro vezes, a polícia militar foi mandada para tirá-los violentamente do local. Eles continuaram a luta. Desde 2001, mais de 450 famílias vivem no Assentamento Mártires de Abril, um projeto de Assentamento Casulo através de convênio entre o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e a Prefeitura Municipal de Belém. A área residencial foi criada com a ajuda do projeto estadual Minha Casa Minha Vida.

A área produtiva foi dividida em Lotes (Lapo – Lote Agroecológico de Produção Orgânica) de 3.4 ha para a produção de açaí, cupuaçu, acerola, pupunha, cheiro verde, alface, cebola, repolho, cariru. Eles trabalham individualmente e também em conjunto com troca de trabalho, por exemplo, para plantações das mudas.

Em Baía do Sol, também na ilha mosqueiro, o banco comunitário Tupinamba movimenta a economia com uma própria moeda e estimula com projetos os produtores agrícolas para que vendam nas feiras locais.

A Ilha de Cotijuba é uma outra ilha no norte de Belém com praias lindas e água doce. Logo na entrada da ilha encontram-se as ruínas do Educandário Nogueira de Farias. Construído em 1936 para abrigar menores de idade que precisavam cumprir medidas judiciais, em um Pará em crise social e financeira depois do declínio da borracha, o educandário virou prisão política na época da Ditadura Militar.

Hoje, a ilha é bem frequentada pelos turistas. O carro da polícia é o único carro na ilha. Moradores e turistas usam os Bondinhos e Motorrete para se movimentar e chegar nas praias. Na casa de arte Toca das Maria na praia Vai quem quer organizamos o Cine com mostras de vários filmes. Participaram umas mulheres do Movimento das Mulheres (MMIB), uma associação que promove o desenvolvimento social e econômico da região através da produção eco-sustentável.

Nas ilhas de Cururupu, Maranhão

Tururu Cine nas comunidades Itamatatiua, Deserto, Frechal, Caçacueira, Valha-me Deus, Lençóis, Bate Vento, Santa Rosa, Entre Rios e Santiago

(Maranhão, 2019) com apoio da embaixada da Suíça – Edital 2019 gestão do lixo

Chico Mendes é símbolo de luta pela preservação da Amazônia e dos povos que dependem dela. Antes de ser assassinado em 1988, ele lutava contra o desmatamento que ameaçava os seringais e outras atividades extrativistas. As idéias de Chico Mendes foram transformadas em realidade com a criação de áreas de preservação específicas para os extrativistas e o órgão governamental, o ICMbio. Tururu Cine fiz apresentações para as crianças nas comunidades da Resex Frechal e Cururupu, e em algumas comunidades vizinhas.

Cine Tururu parou em Itamatatiua, 70 km de Alcântara. A antiga Fazenda Itamatatiua produzia tijolos e foi abandonada no século XIX pelos religiosos da Ordem do Carmo. Hoje, a comunidade Quilombo é conhecida internacionalmente pelos trabalhos em cerâmica.

Todos os dias, as mulheres se unem no centro de produção e processam o barro. As técnicas tradicionais do artesanato de cerâmica são transmitidas de geração em geração, elas aprendem os segredos desde a infância. Após a secagem, as peças são queimadas no fogão a lenha da comunidade. Alguns anos antes, milhares de potes foram feitos aqui para armazenar água. Hoje, são vendidos mais como itens decorativos, o plástico substitui a cerâmica na cozinha doméstica. Só para restaurantes, se vende ainda pratos e panelas de barro. Essas produções maiores são realizadas em conjunto pelas mulheres.

Os Quilombos Deserto e Frechal são localizados no município de Mirinzal, na baixada ocidental maranhense. Em 1935, por causa do alto endividamento, um terreno deixada como herança familiar teria que ser vendido, sendo assim, os ex-escravos se uniram: Com uma única colheita de algodão, eles conseguiram garantir a terra para eles. Em 1985, com a fundação da Resex, Frechal foi retornada ao seu antigo dono e estabilizou-se o direito de uso da terra para os quilombolas. A maioria são descendentes de escravos africanos. Porém, o reconhecimento como Quilombo foi questionado há muito tempo pelos moradores locais.

Para a pesca tradicional, eles usam as técnicas de socó, uma boia de cauda fina, que fica no rio raso durante a noite. Ou o cesto, feito de cipó, a tarrafa, a rede que se abre, matapi, uma rede de bambu usada no início das chuvas, e o massua, uma espécie de labirinto de galhos.

Christine Leidgens, uma fotógrafa belga, documentou a vida cotidiana do assentamento Frechal nos anos 70 e 80. Em 2018, o centro de fotografia foi inaugurado com uma exposição de fotografia dela. As mulheres ainda lavam as roupas no riacho como nos fotos antigas, elas ensaboam as crianças ao lado dos vestidos.

A primeira ilha visitada pelo o Cine Tururu foi a ilha de Caçacoira. A energia elétrica só é disponibilizada a noite, quando liga o motor comunitário. O artista Joilton trabalha com pinturas e artesanato.

Valha-me deus é uma das ilhas ao norte da Resex Cururupu. A comunidade é cercada por coqueiros, cajueiros e mangueiras, no porto podem ser observados os guarás ao comer os camarões. Os Praianos, como os moradores são chamados aqui, são menos numeroso que antes. Muitos foram embora por falta de trabalho ou para terminar os estudos. Hoje são por volta de 300 pessoas morando na comunidade. A maioria viva da pesca.

Com canoas motorizadas eles pescam nos canais dos manguezais. O peixe e o camarão ainda são abundantes. Umas pescadores fazem uso da “zangaria”, uma rede proibida pelas organizações ambientais, por ser fina e longa, mede até 2000 braços. Se for capturada, a rede é queimada. O uso é necessário para alimentar as famílias, argumenta um pescador, “pescadores não são planejadores, quando se tem muito, se come muito, e se gasta o dinheiro”, e se as capturas são poucas, usam as redes mais finas para pegar também camarão miúdo.

Devido à falta de energia eléctrica, não há possibilidade para congelamento, o peixe tem que ser vendido rapidamente, ou salgado, secado e consumido com Xibé, farinha misturada com água. O gelo chega em caixas de isopor da cidade, o peixe é carregado a cada 80 ou 90 quilos, pagam 16 reais para transportá-lo até o porto, 3-5 reais para carregar no carro, 10 reais para transportar para a cidade, e mais 3-5 reais para descarregar, e uma participação nas vendas, para vender ao preço de 10 reais o quilo.

Alguns cearenses plantam mandioca, maxixe, capim, cultivam cabras, galinhas e patos. Há um mês, o gerador da comunidade queimou e os moradores passam as noites no escuro sem TV. Alguns têm seu próprio motor, rugem nas noite estreladas e silenciosas.

Na comunidade as duas igrejas são ativas, as evangélicas e católicas. Internet custa 2 reais por hora num dos vários comércios. Muitos desistem da vida na ilha. Cerca de 150 lotes foram deixados. Costumava haver 3 colégios, hoje apenas 29 alunos frequentam a escola na vila. As aulas são ministradas até a 8ª serie, depois tem que mudar para as cidades para terminar o ensino médio. Depois de acostumados com a vida na cidade, os jovens preferem fazer um curso para trabalharem como enfermeiros ou enfermeiras, professores ou professoras, ou buscam um emprego no supermercado ou em alguma loja, e retornam apenas como visitantes na ilha.

Da ilha de Valha-me Deus, dois pescadores nos levam sobre as ondas altas para a próxima ilha, a Ilha do Lençóis. Nós contribuímos com a gasolina. Os morros de areia branca atrás do povoado são visíveis de longe. As casas coloridas de madeira são construídas com um ou dois andares e são próximas uma das outras, com pouco espaço disponível para a comunidade. A areia empurra e penetra no povoado. Umas palmeiras e cajueiros ainda seguram a terra. Já se perdeu a antiga escola e uma rua de casas. A casa do Resex, onde estamos alojados, será uma das próximas vítimas, o banheiro na parte de trás está fundo na areia.

Nos fim do tarde, as jovens jogam futebol na areia e tomam um banho na lagoa cristalina que se forma todos os anos depois das chuvas. Na mesma lagoa, as mulheres lavam roupas. Água de beber, as mulheres pegam com baldes nos poços fundos perto da lagoa. Como há um sistema de energia solar, há energia o dia todo. Muitas crianças passam horas na televisão. No cinema, na escola na beira do mar, mostramos diversos filmes animados. As crianças pedem filmes de terror, Anna Bella. Nós mostramos outro tipo de horror, sobre o sofrimento da natureza e dos animais, o lixo que polui os mares. As imagens das criaturas do mar estranguladas por plástico impressionaram apenas brevemente. Elas querem horror de Hollywood.