CINEMA, CULTURA, ARTES e RESISTÊNCIA em MOVIMENTO

Tururu Cine, Comunidade Angicos de baixa, Ceará 2018

Tururu Cine, o projeto itinerante da curadora suíça Nora Hauswirth, iniciou em Fortaleza em novembro 2017 com a ideia de levar arte e cinema para pequenas comunidades nordestinas e nortistas. É um projeto de coleta e exibição de material artístico, livre para ser redesenhado a cada novo lugar. Na viagem com uma kombi por cinco estados brasileiros – Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas – foram realizadas até fim de 2019 mais de 160 apresentações em comunidades rurais e bairros urbanos. Fotografias, músicas, filmes e documentários sobre a conscientização dos impactos humanos no meio ambiente e histórias que fortalecem a luta e unem as pessoas em busca da cidadania plena e igualdade social, fazem parte do programa do Tururu Cine. A ideia é a construção de um espaço de diálogo democrático, envolvendo a própria realidade concreta dessas comunidades na sua dimensão cultural, ambiental, política e social.

Na viagem, as apresentações foram feitas em lugares encontrados pelos caminhos, como na transamazônica, no litoral maranhense ou nos interiores do Ceará. A kombi utilizada, além de servir como moradia, quando apoia um tecido branco também se transforma em tela. Várias apresentações foram realizadas em parceria com ONG’s e instituições locais, como o Instituto Antônio Conselheiro, Cáritas, CPT e ICMbio. No ano de 2019, o projeto foi apoiado pela embaixada da Suíça realizado junto com o artista Manoel Souza. Entre outros, foram exibidos o curta animado “Ta Limpo”, de Christina Koenig, sobre aproveitamento de resíduos sólidos, a ficção “Para’í” de Vinicius Toro, que conta a história de uma menina guarani que encontra sementes crioulas de milho e reflete sobre a vida na cidade; o curta “Plantae”, de Guilherme Gehr, sobre desmatamento da Amazônia; “Life in Syntropy” de Agenda Gotsch, sobre agroflorestas como agricultura alternativa; e a animação “Abuela Grillo”, de The Animation Workshop, a respeito da luta contra a utilização da água como mercadoria.

A gente já vinha nesta pratica de guardar nossas próprias sementes, seja em lata, seja em garrafa. Então não há nisso dependência do mercado.

Filme AS SEMENTES do Beto Novaes e Cleisson Vidal

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O arco do desflorestamento amazônica no sudoeste paraense

As carvoarias na saída da cidade Tucuruí, Pará

Tururu Cine na Resex Ipaú-Anilzinho: Comunidade Anilzinho, Escola km 80, Joana Peres, Santa Rosa, Espirito Santo e na reserva da Comunidade Indígena Trocatá de Suruni  Tururuí (Pará, 2019) com apoio da Embaixada da Suíça – Edital 2019 gestão do lixo

No fim da tarde dirigimos pela estrada de terra esburacada em direção a Resex Ipaú-Anilzinho, ao norte do Tucuruí, no município de Baião. Já na margem da cidade vem ao nosso encontro caminhões madeireiros. A poeira da estrada se mistura com a fumaça embaçada das carvoarias na beira da estrada. E difícil de definir se também há fogo de desmatamento, tudo é nebuloso. Paramos, os carvoeiros, adolescente e aposentados, empilhando a madeira nos fornos redondos, ensacando o carvão, sem máscara, os corpos sujos de preto. Os meses passados, foram fechadas várias serrarias e carvoarias na Trans-Cambeta por conta do trabalho análogo a escravidão empregada. 

“É um bom negócio para uma empresa, quando se foge dos impostos, explorando a mão de obra quando não são pagos os salários e não são cumpridas as leis ambientais”; informa o Hilário, da comissão pastoral da terra (CPT), uma organização fundada em 1975, em uma época na qual o governo quis povoar a “terra sem povo”, ignorando a população indígena existente.  As atividades madeireiras e o desmatamento – quase a metade dele realizado de forma ilegal – é uma das intervenções humanas que mais prejudica a sustentabilidade ambiental na região. As principais causas regionais são a criação de gado, monoculturas, obras de infraestrutura, atividades madeireiras e a grilagem de terras.  

Desde esse ano fazendeiros começaram a matar a floresta com o agrotóxico vindo do sudoeste do Pará nas regiões de Tucuruí, Marabá e Breu Branco para desmatamento, para plantar capim e cuidar do gado ou outros monocultivos. Com uso do “Pó da China” e “Agente Laranja” pode se livrar da área ocupada de forma mais rápida e barata.  

Porém, a maioria dos produtores derrubam e tocam fogo por falta de conhecimento sobre outras técnicas de plantio. Dentro da Resex, as queimadas deveriam ser eliminadas por questões ambientais, mas dia a dia a preparação da roça parece mais prática para os pequenos produtores com a utilização dessa técnica. Eles ignoram que se perde muito da vida da terra quando esta é queimada constantemente. No mês de outubro queimaram as capoeiras para cultivar a plantação dominante da região, a mandioca. Por segurança, os fogos serão coordenados pelo ICMBio. A mudança para plantações mais sustentáveis, como as agroflorestais, se complica também porque as agências dos bancos não favorecem créditos do PRONAF floresta, regularmente pedidos de projetos estão sendo ignorados, informa Hilário do CPT, Comissão Pastoral da Terra. 

Pela iniciativa dos povoados tradicionais como o quilombola Anilzinho e a comunidade Joana Peres a Resex Ipaú-Anilzinho foi criada em 2005 com o objetivo de proteger o estilo de vida e a cultura das populações e o uso sustentável dos recursos naturais. A comunidade Joana Peres tem 243 anos de resistência, Anilzinho provavelmente tem a mesma idade. Muitos ainda sobrevivem da pesca artesanal e da venda dos produtos agrícolas, como a farinha e a polpa de cupuaçu, cação, etc. Antigamente, os povos indígenas da região entravam em suas roças, conta Seu José Miranda, um dos moradores. 

Na comunidade de Anilzinho foi realizada a apresentação cinematográfica em um local aberto entre a igreja católica e evangélica.

Na comunidade Joana Peres a apresentação foi realizada na praça central com mais que 200 participantes, junto com Eva e Ceará que realizam sessões de cinema de vez em quando para as crianças.

Um exemplo de produção diversificada é o sitio do seu Maribondo, na margem do povoado Espírito Santo, onde predomina a criação do gado e as atividades madeireiras. A terra produz quase de tudo: arroz, feijão, milho, açaí, goma, farinha, cação, castanha, manga, laranja, limão, mel, porco, boi, peixe e galinha para o próprio consumo. A terra dá grandes quantidades de bananas, que são quase todas vendidas, a cada semana 3-4 caixas são dadas para os porcos. Quando Seu Maribondo veio para essa região com o pai dele, fazia o que tudo mundo fazia: desmatar e criar gado. Num ano de seca ele mudou a estratégia totalmente, a criação do boi não teve mais futuro, ele queria plantar espécies frutíferas em cultivos mistos. A formação dos filhos em agricultura e técnicas agroflorestais fortaleceu essa caminhada de sucesso e felicidade de hoje com muita abundância e fartura.   

O povoado Santa Rosa, 15 km ao norte do Anilzinho, abriga 15 famílias em uma área de uma antiga fazenda. Cada semana Dona Rosa e o vizinho Maurício – os primeiros moradores daqui – vão no ônibus para a cidade para vender os produtos agrícolas deles, farinha, tapioca, ovos, galinhas, frutas e verduras da época. No período da seca, a produção fica pouca por falta de sistemas de irrigação ou cobertura vegetal da terra – o poço artesiano não possui quantidade suficiente para molhar a plantação. Os outros moradores produzem só para o próprio consumo e são mais ligados nas atividades madeireiras. A antiga fazenda foi povoada há 14 anos. Só há 2 meses possui energia elétrica. Baterias foram recicladas no pé das bananeiras.

As crianças do sítio vizinho vão de jumento para a pequena escola no km 80, onde estudam cerca de 10 crianças da região em uma pequena barraca de madeira com uma sala e um professor para 4 turmas. Tivemos a possibilidade de passar durante as aulas um dos filmes curta-metragem sobre a questão do lixo e meio ambiente.  

A Comunidade Espírito Santo fica na beira da estrada Trans-Gameta, onde a maioria dos moradores trabalha com criação de gado ou atividades madeireiras.

Na fronteira agrícola amazônica no nordeste paraense

Serraria que foi fechado em Campos Belo pelo IBAMA, Setembro 2019

Tururu Cine nas comunidades São Raimundo Nonato Anoerasinho, Vila do Breu na região Quatro Bocas/Tomé-Açu, e Campos Belo, Vila Aparecida, Vila Jatuba na região Goianésia (Pará, 2019) com apoio da Embaixada da Suíça – Edital 2019 gestão do lixo

Terras desertas, áreas descampadas da soja ou milho, florestas de eucalipto no horizonte, uma fazenda com nome “export” no rio gringo, quilômetro por quilômetro plantações de dendê. Assim que se apresenta as margens da estrada chegando na cidade Tomé-Açu, na fronteira agrícola amazônica.

O mundo real e virtual quase se choca quando assistimos na Vila do Breu na PA 256 o filme sobre desmatamento ao passar caminhões carregando troncos de árvores enormes para uma das 6 serrarias de Tomé-Açu, onde teve antigamente umas 30 serrarias. Os transportes ilegais se aproveitam da escuridão da noite e da falta de fiscalização. Assim eles contribuem para a destruição da floresta amazônica.

Em Tomé-Açu chegaram 90 anos atrás os imigrantes japoneses e fundaram a primeira cooperativa de hortaliças do amazônia – hoje conhecido como CAMTA, referência de produção agroflorestal. Depois dos japoneses, chegaram famílias do Brasil todo, Bahia, Ceará, Maranhão, uma das cidades é Cameta. A maioria das terras está nas mãos dos japoneses, os moradores das comunidades vizinhas trabalham nas terras deles.

Os japoneses produziam arroz e hortaliças para o próprio consumo e a comercialização em Belém, na época a viagem fluvial durava cerca de 20 horas no rio Acará-Miri com barcos que os imigrantes tinham construídos. A venda era difícil, pois não havia o costume de consumo das variedades produzidas. Nos anos 1930, Dr. Makinosuke Usui trouxe pimenta do reino do Singapura, dois pês cresceram. Nos anos 1950 depois do segundo guerra mundial o polo Tomé-Açu foi o maior produtor nacional do diamante preto. Porém, nos anos 1960 as pragas atacam monoculturas enormes. Para melhorar a terra, os produtores começaram nos anos 1970 com as técnicas agroflorestais.

Uma produção de referência é encontrada na fazenda de Michinori Konagano. Ele comprou em 1978 a primeira área de produção e plantou pimenta de reino, com cacau, mogno, açaí, abóbora, melancia e feijão tudo junto. Os japoneses tinham observado os ribeirinhos nas margens dos rios com quintais ricos em frutas. Na área do Michinori, além do adubo natural são usadas substancias químicas. São áreas com produção muito alta, mas sempre em harmonia o tripé: economia, o social e o meio ambiente. Há 230 hectares de agrofloresta que sustenta 50 famílias das comunidades da região.

Michinori Konagano é produtor agrícola, cultivando 230 ha em sistemas agroflorestais em Tomé-Açu

Michinori esta sempre promovendo sistemas agroflorestais e apoiando as comunidades da região, como a comunidade São Raimundo, onde moram 35 famílias em lotes. Fizemos uma noite de cinema, junto com a Associação dos Produtores da 4.a região. A “mini associação” reuni 13 produtores, a maioria produzindo com sistemas agroflorestais. Conhecemos Edvino e Vera que fazem enxertos para acelerar a produtividade e vendem mudas de cupuaçu, laranjas, e outras espécies. Fizemos uma troca de sementes crioulas.

Goianésia, 250 km de distância tornou-se uma das maiores produtoras de madeira semi-beneficiada de toda a região norte, abastecendo a demanda do mercado internacional e do centro-sul brasileiro. Desde a crise de 2005 o município sofre com dificuldades econômicas. Há 40 anos, ainda era floresta fechada, 20 anos depois, fazendeiros compraram as terras já sem árvores.

O povoado de Campos Belos está situado na beira da estrada entre Tailândia e Goianésia do Pará, numa pequena área doada por um fazendeiro anos atrás, é cercada de terra, deserto e campos. O povoamento veio com a exploração de madeira, duas semanas atrás uma das duas últimas serrarias foi fechada por atividades ilegais. A comunidade sobrevive da madeira. Porém, as florestas há 12 km da comunidade não podem ser desmatadas mais. Fizemos uma noite de cinema na escola com participação da comunidade toda, mostrando os filmes sobre as agroflorestas que podiam ser uma alternativa para trabalhar a terra no futuro.

Seguimos na estrada para Goianésia. Os moradores da Vila Aparecida chagaram há 35 anos em busca de madeira e terra para exploração. O carvão foi vendido para as metalúrgicas grandes que haviam na época. Depois os órgãos relacionados com a pauta do meio ambiente proibiram as atividades e uma grande parte do povo ficou sem renda. Atualmente, os pequenos fazendeiros vendem as terras para o agronegócio. Diversas pessoas plantam nos quintais para o próprio consumo. Fizemos uma apresentação de cinema na praça principal, junto com a Prof. Eliude que estimula os alunos e produtores locais ao uso de sistemas ecológicas.

Continuamos na estrada para Goianésia, a Vila Jatuba (apelido para o povoado Guaraina) se criou há 40 anos quando o estado deu terra para os trabalhadores. O povoado hoje é localizado entre uma área de fazenda e uma plantação de eucalipto. Hoje vivem umas 45 famílias aqui. Há uma área da comunidade, e cada um possui também terra para plantação. Umas fazem uso, outros não, umas pescam no igarapé, outras caçam. A apresentação de cinema acontecia em baixo de uma árvore no centro da comunidade.

Da Vila Aparecida, entramos 30 km na estrada da terra para o interior, a comunidade Vila Matias, onde vários agricultores produzem para a merenda das escolas e frutas para o supermercado da região.

As ilhas e quilombos de Belém, Pará

Tururu Cine na ilha de Combu, Belém, 2019

Tururu Cine nas comunidades São João Batista, no Assentamento MST Mártires de Abril-Ilha Mosqueiro, no Assentamento Expedito Ribeiro, na Comunidade Piriquitaquara Ilha Combu, na comunidade Boa Vista do Acará e na Ilha de Cotijuba (Pará, 2019) com apoio da embaixada da Suíça – Edital 2019 gestão do lixo

Pelo porto de Belém, chegaram os escravos africanos durante a época de colonização no século XVI. Baseado na exploração do trabalho humano, se formou o primeiro mercado lucrativo da região, o da borracha. Até hoje, em inúmeras fazendas, a escravidão nordestina continua. Humanos sofrem e também a nossa Terra Mãe. Motor desse inferno são as inúmeras fazendas que produzem carnes para os consumidores mundiais, e os governos que ajudam este processo, os quais, deveriam ser responsabilizados pelo grande desmatamento da floresta amazônica, queimada em taxas recorde, assim é destruída uma grande área do pulmão do mundo.

Ao mesmo tempo, são crescentes as atividades agrícolas sustentáveis, como os sistemas agroflorestais (SAFs). Em uma área com proteção do solo por uma cobertura vegetal, são plantadas uma variedade de árvores em conjunto com culturas agrícolas, e com técnicas de manutenção, aumenta-se a quantidade de biomassa.

Cerca de 50 Km de Belém, no município do Santa Bárbara, foi criada há 10 anos a primeira Ecovila do Pará. A comunidade sustentável Ecovila Iandê está situada em uma antiga área de extração de areia, cercada por mata secundária, uma lagoa com nascente e um igarapé. IANDÊ na língua Tupi-Guarani significa “tu”, “você”, o pensar no outro é o primeiro passo para se viver em coletividade. Em várias áreas foram implementadas agroflorestas e hortas ecológicas. Em algumas partes, a terra ainda está dura por ter sido maltratada tanto tempo, mas com manejo e com tempo ela vai se recuperar.

A Ecovila participa da rede CSA (Comunidade que Sustenta Agricultura) e entrega cada semana frutas, verduras, folhas e ovos para 15 famílias. Em dias de mutirão coletivos, as famílias são envolvidas no plantio. Lenicy Maria, fundadora da Ecovila Iandê, estimula os consumidores a terem contato com a terra, mas também os outros produtores locais a aumentar as áreas de agroflorestas.

O Cine Tururu se apresentou nas comunidades com vários filmes curtos, como o curta-metragem Plantae, do francês Guilherme Gehr, sobre as almas das árvores. Um branco com moto-serra corta uma árvore enorme na floresta amazônica. Ao invés de cair, ele sobe ao céu. O filme é uma reflexão sobre as consequências irreversíveis do desmatamento. Mostramos também o filme animado ‘Tá limpo’, de Christina Koenig, sobre a questão de separação do lixo. O Bico, um urubu, conta para seu amigo, o menino Pipoca, sobre uma fábrica que faz coisas novas com coisas usadas. A Comunidade se desfaz de toda sujeira e organiza a coleta seletiva do lixo. As crianças estavam morrendo de rir e observavam com interesse as fotografias apresentadas depois, dos bichos no mar, enrolados no plástico. Se não mudamos nosso consume, vai ter mais plástico que peixe nos oceanos. Apesar de ser próxima da cidade, a maioria das comunidades visitadas não tem carro ou barco de lixo que faça a coleta, os moradores são forçados a queimar o lixo nos quintais. Também não existem possibilidades para reciclar. Algumas pessoas separam o orgânico, o resto todo, plásticos, garrafas pet, latas, baterias, eletrônicos e metais vão junto para queimar ao ar aberto, seja no quintal ou no lixão da prefeitura.

Estamos caminhando para um cenário futurístico, como foi imaginado no filme Wall-E, produzido pela Pixar Animation Studios, que fala sobre a terra cheia de lixo e um robô, deixado na terra para limpar o planeta ao buscar sinais de vida. Nas apresentações do cinema falamos sobre o impacto do lixo perigoso queimado, e a solução de reduzir e reciclar.

Desde a década de 1970 o dendê foi cultivado no Pará em grande escala para a produção de óleo de palma. A empresa Denpasa foi pioneira local nos negócios e ocupava terra do estado em grande escala, porém sem documentação que comprovasse o domínio da terra. Um dia as pragas atacaram as monoculturas e as atividades precisaram ser abandonadas.

A organização dos trabalhadores reunia famílias sem terra: vários assentamentos foram criados. Na antiga fazenda Baiacu, onde funcionava como viveiro de mudas de dendê, foi criada a comunidade Expedito Ribeirinho. Em 2006 os 606 moradores foram divididos em 55 lotes de 10ha de área particular e áreas coletivas. O povoado conta com apenas 100 famílias, mas as distâncias são longas por conta do tamanho dos lotes. As casas são construídas de madeira e cercadas de diversas árvores frutíferas. Várias famílias trabalham com agricultura e a produção de farinha. Através de diversos projetos agroflorestais, e com ajuda do Instituto Flor, Universidade de Tókio e o Fundo Verde, grande parte das áreas foram reflorestadas com árvores utilizáveis, o que garante o desenvolvimento sustentável do assentamento.

Ainda no Município de Santa Bárbara, na estrada para Genipaúba, encontram-se umas casas da comunidade São João Batista. A primeira impressão do tamanho da comunidade estava errada, logo atrás das primeiras casas entrando nos caminhos encontram-se as casas dos filhos e netos. Muitos vivem da agricultura e atribuem importância a uma produção ecológica.

A Ilha do Combu fica nas margens do rio Guamá, quinze minutos da capital paraense. Os ribeirinhos moram em casas de madeira nos igarapés, que são rios estreitos navegáveis por canoas, as únicas rotas pelas ilhas. Devido à proximidade da cidade, muitas famílias não investem mais na agricultura e trabalham fora. Antigamente, eles levavam maxixe, quiabo, macaxeira e frutas para a feira no Porto da Palha. As áreas ainda estão cheias de açaí, andiroba e cacau. Dona Nena produz chocolate no quintal, ela é famosa. Nos fins de semana, visitantes da cidade chegam na loja, compram de 50 a 100 reais, visitam uma parte da produção em um tour rápido por 5 reais e entram no barco que os traz para um dos bares ou restaurantes.

Pouco isolada do fluxo turístico, no furo do paciência, encontra-se a comunidade Piriquitaquara. Dominado pela maré, a água sobe suavemente e desce novamente. Para visitar um vizinho, as pessoas usam canoas, muitas ainda sem motor. Duas mulheres numa canoa vermelha passam. Na noite do cinema, os barcos chegam no escuro, eles atracam no trapiche, na maré baixa.

A Comunidade de Boa Vista do Acará foca na produção de plantas aromáticas para a indústria de cosméticos. Priprioca, cultivada em pequenas monoculturas orgânicas, é uma das várias plantas cultivadas pelos agricultores da associação. É uma raiz aromática nativa da floresta amazônica, que possui um perfume fantástico e afrodisíaco. Na feira do Ver-o-peso, compra-se também como um componente do Cheiro-do-Pará.

São várias comunidades na região que produzem para as empresas Beraca (extração dos óleos) e Natura (produtos de cosméticos). Varios tarrefas são organizados de forma colletivo, por exemplo, cada semana segunda-feira e terça-feira são os dias do serviço comunitário.

A Dona Beth é uma das fundadoras da associação que existe desde 2002. Tudo começou com um projeto de priprioca. Ela lembra do tempo passado, quando ela criou as suas filhas, passou a linha de alta tensão, mas não chegou a energia elétrica na comunidade. Era difícil, a família passou muita fome. No quintal dela não tinha nada. Ela que fez um reflorestamento. Um colega do Mato Grosso trouxe sementes de outras espécies como mogno, parika, andiroba e capitiu e virou uma mata diferente. “Aqui ninguém mexe, porque aqui tudo vale a pena. Quando der sementes, eu já vou plantar de novo.”

Praias de água doce na ilha de Mosqueiro ficam localizadas na região norte de Belém. A ilha foi o lugar, onde teve a primeira fábrica de borracha do Pará e onde os ricos de Belém passavam os finais de semana.

Hoje, a ilha é acessível por uma ponte. No final dos anos 90, na antiga Fazenda Taba, famílias sem terra do MST reuniram-se e lutaram por terras agrícolas. Por quatro vezes, a polícia militar foi mandada para tirá-los violentamente do local. Eles continuaram a luta. Desde 2001, mais de 450 famílias vivem no Assentamento Mártires de Abril, um projeto de Assentamento Casulo através de convênio entre o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e a Prefeitura Municipal de Belém. A área residencial foi criada com a ajuda do projeto estadual Minha Casa Minha Vida.

A área produtiva foi dividida em Lotes (Lapo – Lote Agroecológico de Produção Orgânica) de 3.4 ha para a produção de açaí, cupuaçu, acerola, pupunha, cheiro verde, alface, cebola, repolho, cariru. Eles trabalham individualmente e também em conjunto com troca de trabalho, por exemplo, para plantações das mudas.

Em Baía do Sol, também na ilha mosqueiro, o banco comunitário Tupinamba movimenta a economia com uma própria moeda e estimula com projetos os produtores agrícolas para que vendam nas feiras locais.

A Ilha de Cotijuba é uma outra ilha no norte de Belém com praias lindas e água doce. Logo na entrada da ilha encontram-se as ruínas do Educandário Nogueira de Farias. Construído em 1936 para abrigar menores de idade que precisavam cumprir medidas judiciais, em um Pará em crise social e financeira depois do declínio da borracha, o educandário virou prisão política na época da Ditadura Militar.

Hoje, a ilha é bem frequentada pelos turistas. O carro da polícia é o único carro na ilha. Moradores e turistas usam os Bondinhos e Motorrete para se movimentar e chegar nas praias. Na casa de arte Toca das Maria na praia Vai quem quer organizamos o Cine com mostras de vários filmes. Participaram umas mulheres do Movimento das Mulheres (MMIB), uma associação que promove o desenvolvimento social e econômico da região através da produção eco-sustentável.

Nas ilhas de Cururupu, Maranhão

Tururu Cine nas comunidades Itamatatiua, Deserto, Frechal, Caçacueira, Valha-me Deus, Lençóis, Bate Vento, Santa Rosa, Entre Rios e Santiago

(Maranhão, 2019) com apoio da embaixada da Suíça – Edital 2019 gestão do lixo

Chico Mendes é símbolo de luta pela preservação da Amazônia e dos povos que dependem dela. Antes de ser assassinado em 1988, ele lutava contra o desmatamento que ameaçava os seringais e outras atividades extrativistas. As idéias de Chico Mendes foram transformadas em realidade com a criação de áreas de preservação específicas para os extrativistas e o órgão governamental, o ICMbio. Tururu Cine fiz apresentações para as crianças nas comunidades da Resex Frechal e Cururupu, e em algumas comunidades vizinhas.

Cine Tururu parou em Itamatatiua, 70 km de Alcântara. A antiga Fazenda Itamatatiua produzia tijolos e foi abandonada no século XIX pelos religiosos da Ordem do Carmo. Hoje, a comunidade Quilombo é conhecida internacionalmente pelos trabalhos em cerâmica.

Todos os dias, as mulheres se unem no centro de produção e processam o barro. As técnicas tradicionais do artesanato de cerâmica são transmitidas de geração em geração, elas aprendem os segredos desde a infância. Após a secagem, as peças são queimadas no fogão a lenha da comunidade. Alguns anos antes, milhares de potes foram feitos aqui para armazenar água. Hoje, são vendidos mais como itens decorativos, o plástico substitui a cerâmica na cozinha doméstica. Só para restaurantes, se vende ainda pratos e panelas de barro. Essas produções maiores são realizadas em conjunto pelas mulheres.

Os Quilombos Deserto e Frechal são localizados no município de Mirinzal, na baixada ocidental maranhense. Em 1935, por causa do alto endividamento, um terreno deixada como herança familiar teria que ser vendido, sendo assim, os ex-escravos se uniram: Com uma única colheita de algodão, eles conseguiram garantir a terra para eles. Em 1985, com a fundação da Resex, Frechal foi retornada ao seu antigo dono e estabilizou-se o direito de uso da terra para os quilombolas. A maioria são descendentes de escravos africanos. Porém, o reconhecimento como Quilombo foi questionado há muito tempo pelos moradores locais.

Para a pesca tradicional, eles usam as técnicas de socó, uma boia de cauda fina, que fica no rio raso durante a noite. Ou o cesto, feito de cipó, a tarrafa, a rede que se abre, matapi, uma rede de bambu usada no início das chuvas, e o massua, uma espécie de labirinto de galhos.

Christine Leidgens, uma fotógrafa belga, documentou a vida cotidiana do assentamento Frechal nos anos 70 e 80. Em 2018, o centro de fotografia foi inaugurado com uma exposição de fotografia dela. As mulheres ainda lavam as roupas no riacho como nos fotos antigas, elas ensaboam as crianças ao lado dos vestidos.

A primeira ilha visitada pelo o Cine Tururu foi a ilha de Caçacoira. A energia elétrica só é disponibilizada a noite, quando liga o motor comunitário. O artista Joilton trabalha com pinturas e artesanato.

Valha-me deus é uma das ilhas ao norte da Resex Cururupu. A comunidade é cercada por coqueiros, cajueiros e mangueiras, no porto podem ser observados os guarás ao comer os camarões. Os Praianos, como os moradores são chamados aqui, são menos numeroso que antes. Muitos foram embora por falta de trabalho ou para terminar os estudos. Hoje são por volta de 300 pessoas morando na comunidade. A maioria viva da pesca.

Com canoas motorizadas eles pescam nos canais dos manguezais. O peixe e o camarão ainda são abundantes. Umas pescadores fazem uso da “zangaria”, uma rede proibida pelas organizações ambientais, por ser fina e longa, mede até 2000 braços. Se for capturada, a rede é queimada. O uso é necessário para alimentar as famílias, argumenta um pescador, “pescadores não são planejadores, quando se tem muito, se come muito, e se gasta o dinheiro”, e se as capturas são poucas, usam as redes mais finas para pegar também camarão miúdo.

Devido à falta de energia eléctrica, não há possibilidade para congelamento, o peixe tem que ser vendido rapidamente, ou salgado, secado e consumido com Xibé, farinha misturada com água. O gelo chega em caixas de isopor da cidade, o peixe é carregado a cada 80 ou 90 quilos, pagam 16 reais para transportá-lo até o porto, 3-5 reais para carregar no carro, 10 reais para transportar para a cidade, e mais 3-5 reais para descarregar, e uma participação nas vendas, para vender ao preço de 10 reais o quilo.

Alguns cearenses plantam mandioca, maxixe, capim, cultivam cabras, galinhas e patos. Há um mês, o gerador da comunidade queimou e os moradores passam as noites no escuro sem TV. Alguns têm seu próprio motor, rugem nas noite estreladas e silenciosas.

Na comunidade as duas igrejas são ativas, as evangélicas e católicas. Internet custa 2 reais por hora num dos vários comércios. Muitos desistem da vida na ilha. Cerca de 150 lotes foram deixados. Costumava haver 3 colégios, hoje apenas 29 alunos frequentam a escola na vila. As aulas são ministradas até a 8ª serie, depois tem que mudar para as cidades para terminar o ensino médio. Depois de acostumados com a vida na cidade, os jovens preferem fazer um curso para trabalharem como enfermeiros ou enfermeiras, professores ou professoras, ou buscam um emprego no supermercado ou em alguma loja, e retornam apenas como visitantes na ilha.

Da ilha de Valha-me Deus, dois pescadores nos levam sobre as ondas altas para a próxima ilha, a Ilha do Lençóis. Nós contribuímos com a gasolina. Os morros de areia branca atrás do povoado são visíveis de longe. As casas coloridas de madeira são construídas com um ou dois andares e são próximas uma das outras, com pouco espaço disponível para a comunidade. A areia empurra e penetra no povoado. Umas palmeiras e cajueiros ainda seguram a terra. Já se perdeu a antiga escola e uma rua de casas. A casa do Resex, onde estamos alojados, será uma das próximas vítimas, o banheiro na parte de trás está fundo na areia.

Nos fim do tarde, as jovens jogam futebol na areia e tomam um banho na lagoa cristalina que se forma todos os anos depois das chuvas. Na mesma lagoa, as mulheres lavam roupas. Água de beber, as mulheres pegam com baldes nos poços fundos perto da lagoa. Como há um sistema de energia solar, há energia o dia todo. Muitas crianças passam horas na televisão. No cinema, na escola na beira do mar, mostramos diversos filmes animados. As crianças pedem filmes de terror, Anna Bella. Nós mostramos outro tipo de horror, sobre o sofrimento da natureza e dos animais, o lixo que polui os mares. As imagens das criaturas do mar estranguladas por plástico impressionaram apenas brevemente. Elas querem horror de Hollywood.

Na Ilha Bate Vento, em frente à Ilha de Lençóis, o mundo civilizado termina às 23 horas. É nessa hora, que os motores são desativados e a energia é desligada na comunidade inteira. De um momento para o outro, todas as luzes se apagam e as TV se calam. Os cães latem por um momento, depois acalmam-se, como se imagina uma noite longe da civilização, com uma visão das estrelas.

Ilha das Moças e Quilombo Santa Rosa

No município de Cururupu existem diversas comunidades quilombolas. Uma dessas é Entre Rios, composta de 50 casas, todas construídas com a ajuda do projeto Minha Casa Minha Vida, há menos de 5 anos.

Antes, as casas eram feitas de barro, as pessoas usavam o rio no quintal para tomar um banho e lavar roupas. Um banho em um dos rios ainda é gostoso, mais não existe mais a necessidade. “Era o óleo de mamona – o carrapato – que a gente usava para alumiar,” conta Filomena Ribeiro, com 87 anos a mais velha da comunidade. O nome da comunidade foi dado por uma mulher que se chamava Vicenzia, a tataravó de Josileia que, conhecemos no Quilombo Frechal. Ela havia fugido da escravidão de uma outra fazenda e vivia por aqui. Naquela época, a Fazenda Aliança era o único empregador na região, os trabalhadores plantavam cana-de-açúcar, junto com as pessoas das comunidades vizinhas. Hoje, a maioria dos moradores trabalha nas cidades. A principal atividade agrícola é a produção de farinha de mandioca, umas vendem frutas, polpa e legumes. A agricultura é baseada na derrubada da mata e queima da vegetação para fazer a roça. O solo já enfraqueceu muito. “Se houver muitas laranjas, vendemos na cidade. Recentemente, vendemos por 50 Reais. As pessoas gostam de comprar nossos produtos dos quintais.” Num viveiro feito no quintal, ela cultiva o peixe tilápia, e trabalha também com horta, principalmente para o próprio consumo.

O interior de Alcântara, Maranhão

Comunidade Mamuna no interior do Alcãntara
Comunidade Mamuna (Maranhão, 2019)

Tururu Cine nas comunidades Mamuna, Espera, Caranguejo 1, Pepital, Santa Maria, São João de Cortês e em Alcântara no Cine Ântica Matador (Maranhão, 2019)

Até os anos 1980 eles viveram isolados do sistema escolar formal e supermercados nos quilombos na beira mar no interior de Alcântara, uma região antigamente habitada pelos índios Tupinambás. Seu Baixinho, morador da nova comunidade Cajueiro, lembra como era nas comunidades antigas: “Não tinha uma estrada para chegar, só caminhos varridos. Nosso rio era cheio de água. Pescávamos no mar. Usávamos jumentos e bois para botar cargas, principalmente carvão e palhas, e barcos de vela para chegar em São Luis. Tinha que ter muito cuidado, porque o mar sempre estava bravo, especialmente em agosto e setembro, mas estávamos acostumados. Vendemos também melões, não estes paulistas como os conhecemos hoje, era um melão da costa. Vendíamos bem.”

Certo dia, 40 anos atrás, 2700 famílias foram remanejadas de seus territórios tradicionais. O centro de lançamento precisava mais espaço. As famílias foram reassentadas em 7 novos povoados. A negociação foi feita por meio da terra e pertences, foram criados listas sobre de tudo, dos coqueiros até as panelas. No novo local, a propriedade da terra e sustentabilidade foram prometidas. Eles foram e a maior parte das promessas nunca foi respeitada.

As famílias de pescadores tornaram-se agricultoras. Produzem farinha de mandioca e continuam a vender carvão. Há vários anos um projeto unia produtores com cientistas da universidade para combater as queimadas nas roças e implementar outras técnicas de cultivar, como as agroflorestais. O projeto ajuda no reflorestamento ao redor do rio com mudas e conhecimento. Cajueirais, Bacuri, Buriti e Bananeiras foram plantadas entre outras espécies nas roças para variar a safra nas terras.

Mostramos o filme “Kirikou e a Feiticeira” sobre um pequeno menino, esperto e inteligente, que salva sua aldeia. O filme fala sobre a importância do acesso à água e lembra o quanto é importante questionar constantemente, assim como faz uma criança, não aceitar tudo que vem de cima. Assim, o menino consegue com muito amor e perseverança libertar seu povo da maldição e repressão.

Novamente, o Centro de Lançamento precisava de mais área. A base de Alcântara é localizada perto do Equador, por isso é estrategicamente favorável. Dessa vez, os americanos queriam usar o Centro de Alcântara para lançar foguetes. O governo brasileiro estava disposto para negócios. Há resistência nas comunidades tradicionais há mais de 40 anos, o futuro é novamente incerto, mas a luta por seus territórios continua.

No Delta do Parnaíba, Piauí

Comunidade Canarias no Delta do Parnaíba
Pedra do Sal, Parnaiba, Tatus, Canarias, Canâa de Norte, Bela Vista (Piauí, 2018)

No litoral do Parnaíba fica a vila de pescadores Pedra Do Sal. Nos tempos antigos, os moradores faziam coleta de sal nas pedras monumentais na praia. Hoje, com o chegada do turismo, acabou-se com essa tradição. A estrada para a comunidade foi recentemente alargada e renovada. A beira da estrada é enfeitada com linhas de alta tensão que atravessem a comunidade até o parque eólico na beira do mar. A eletricidade crepita e zumbe. Com desconforto passamos debaixo das linhas. A indústria domina. O vento está forte, o mar agitado. As ondas são violentas. Os pescadores saem com seus pequenos barcos de madeira. Seus pés são largos, são excelentes nadadores. Peixe frito com baião de dois ou peixe cozido com caju, cebola e tomate são os pratos típicos daqui. As famílias têm muitas crianças, as noites do cinema na casa dos pescadores são bem frequentadas. Entre outros, passa o filme “As Mulheres das águas” sobre as mulheres pescadoras na Bahia e em Pernambuco, o estilo de vida, e a própria sobrevivência está ameaçada pela poluição das grandes indústrias e turismo de exploração.

10 km do litoral encontra-se o porto Tatus, a entrada para o maior delta das Américas. Os pequenos barcos dos pescadores têm de se retirar do porto, dominado pelo turismo. As atrações aqui: dunas de areia branca de 40 m de altura, caindo nos rios. Praias longas, lagoas de água doce. Macacos selvagens. Árvores cheias de guarás, um pássaro vermelho. Canais que formam mais de 72 ilhas. Um labirinto. Os manguezais. A zona de caça de caranguejo. Ágil eles levitam sobre as raízes do mangue que saem da água na maré seca, e pegam os caranguejos no fundo da lama. Fumaça de carvão mantém os mosquitos afastados. À noite, eles vendem os frutos do mar no porto.

Na maré baixa, as marisqueiras dirigem-se para um canal próximo. Na água morna elas ficam sentados por horas. Em grandes redes, limpam as conchas da areia. Tudo feito artesanalmente. À noite, elas cozinham o marisco em fogueiras na cooperativa. A Luisa, era presidente da associação durante muitos anos, ainda puxando os outros membros e a família dela para trabalhar. Na época do caju, ela chama toda a família para caçar embaixo dos cajueiros rasteiros, subindo e descendo as dunas. Eles separam as frutas da castanha, levam só as castanhas que são mais valorizadas. Ela leva apenas um balde de frutas, o doce dela é uma delícia. Uma vez por semana, a Luisa e outras mulheres da região vendem seus produtos orgânicos em uma feira agrícola familiar em frente da universidade. Couve, mandioca, bolos, manga, caju ou milho, dependendo da época.

Saímos com o barco motorizado do porto de Tatus para os povoados tradicionais dos pescadores dentro do delta. Canárias, Torto, Morro do Meio e outras comunidades. Aqui moram cerca de 3000 pessoas. Na maré seca, água doce, na maré cheia, água salgada. Dona Raimunda, conhecida como Preta, fala sobre tempos passados: “Quando criança, brincávamos nos rios, nós vivíamos como no jardim do éden, nadávamos pelados, era como o paraíso. O marido era comerciante de peixe, como já era o pai dela. Naquela época teve muito peixe. Eles salgavam os peixes com sal grosso que teve que ser pisado antes, um ato de força. Com 28 anos de idade, já tinha 10 filhos. Deu muito trabalho. O padre só vinha para os dois festejos do São João e Nossa Senhora das Dores, tinha brincadeiras do boi, tinha os tocadores e reisado, eles se trajavam, se fantasiavam, e íamos de casa para nos portos para cantar. Hoje, os pernas já são velhas, acaba com tudo”.

Auto-invenção e auto-confiança para a sobrevivência autônoma. Ambos são moradores dos assentamentos Canãa do Norte e São José no Assentamento Cajueira. Os primeiros vivem há anos em uma área deixada pelo estado para uso temporário. As casas são de barro, sem eletricidade. Os produtos agrícolas são milho, feijão, mandioca e mel. Os últimos colaboram com a Embrapa e utilizam as técnicas de aquaponia para combinar a piscicultura e o cultivo de hortaliças, além disso, mantêm 4 porcos e galinhas para fazer gás com as fezes e o gás Biodigestor.

Na margem da caatinga Cearense

Expolracao de Madeira Brasil Comunidade Saco de Jaco, região  Viçoca do Ceará
Communidade Saco do Jaco Visoça: A madeira de sabia é explorado para fazer cercas usando mulas para o transportar fora da floresta (Ceará, 2018)

Tururu Cine nas communidades Saco do Jaco, Timbaúba, Tucuns e Testa de Ferro (Ceará, 2018).

Pouco antes do pôr do sol, os porcos e gados retornam da floresta. De Viçosa há uma hora de viagem em estradas arenosas e de densas florestas encontra-se ao pé da serra as comunidades de Saco do Jaco, Timbaúba, Tucuns e Testa de Ferro.

As casas ficam distantes umas das outras, o riacho cruza os pequenos povoados separados com carnaubais e roças, casas de farinha, usina de arroz, várias escolas e bares, oficina para motos, casa de taipa isolada no mato, uma fazenda abandonada na floresta, rádio local que toca no fim de semana. Mandioca, feijão, milho e arroz se dão bem nas roças, o trabalho no campo está se tornando mais e mais difícil, as rendas baixam, o uso dos agrotóxicos torna mais popular. Mensalmente, as mulheres pegam um pau-de-arara como transporte para receber o bolsa família e fazer as compras. Para uso agrícola, áreas florestais foram queimadas. As terras são cultivadas durante um ano, depois os agricultores deixam virar “capoeira” durante 3-4 anos para queimar e plantar de novo.

Seu Emanuel, 83, um dos mais velhos, ainda trabalha no roçado e se alimenta principalmente da própria farinha e caças. Ele é um dos poucos que tem conhecimento sobre as pinturas indígenas nas paredes de rocha e se disponibiliza a fazer o caminho de subida da serra. No caminho, ele fala sobre as plantas medicinais e conta do avô dele, o Sr. Brite, que era dono das terras daqui. Nessa época tudo era floresta. Ele era estrangeiro, de onde, ninguém sabia. Havia uma disputa familiar entre os herdeiros. Por isso, um novo proprietário conseguiu comprar barato uma grande parte das terras, os parentes foram se acomodando nos terrenos próximos ao da casa do griô, Seu Emanuel. Lá moram primos, sobrinhos, toda sua família, os atuais proprietários da terra, assim que as famílias crescem.

Seguimos o caminho arenoso um pouco mais e chegamos na casa da Ana e Chico. Eles construíram sua primeira casa de barro e folhas de palmeira na floresta, próximo ao local onde a família de Chico sempre vivera. O novo proprietário vendeu-lhes um pedaço de terra nos assentamentos, ele não queria mais moradores dentro na floresta.

Nuvens passam. 20 anos atrás, teria chovido bem nesta época do ano, eles me disseram. Hoje, final de agosto, os dias estão quentes, meio-dia e os pés ardem nos caminhos de areia quente.  É a estação seca, alguns arbustos ainda estão verdes, mas logo eles perderão as folhas. Na estação seca, a água é limitada, quase todas as fontes secam. Cada família recebe água durante uma meio hora no dia para encher o próprio tanque. Não é suficiente para aguar as terras. Nas sessões do Cine Tururu projetamos filmes sobre técnicas de permacultura, sobre a reutilização de águas não tratada para as plantações do bananeiras, tomates e outros vegetais no quintal, estratégias de agrofloresta e importância das sementes crioulas.

Agricultor Ana com filha no rio na comunidade Agricultur Ana com a mae e filha na Saco do Jaco Viçosa Ceara

Chico nunca estudou permacultura. Ele sabe observar e aprender da natureza. E assim, em seu quintal formou-se uma agrofloresta. Ana e Chico investiram em uma mangueira de 6 km, que traz água da cachoeira. Hoje é a única fonte que não seca. Embaixo do mangueiral, eles plantam bananeiras que já geram renda e provém muito material orgânico, o que melhora a terra. Na horta tem pimentões, mamões, feijões, cajueiros com várias árvores nativas. Com algumas vizinhas construímos uma horta coletiva para a plantação da hortaliças como couve, tomates, alfaces para o consumo próprio.

Na região falta trabalho especialmente para as mulheres. Umas conseguem uma renda extra com artesanato (redes de tucuns e tecidos reciclados, tapetes de tecidos). Ana, exemplo de força feminina, enérgica, pela manhã cedo já quebra coco agachada no chão com as pernas estendidas. O coco é destinado a produção de óleo, sendo fonte de renda familiar. Traz feijões e maxixes do quintal, debulha-os e cozinha-os no carvão caseiro ao lado de um pote de arroz. Ou carvão também é feito por ela, com sobras de babaçu. “Aproveito de tudo, mas… as pessoas só querem se luxar”.

Na altura do Serra de Ibiapaba

Tururu Cine parou em Guaraciaba Comunidade de Mostera Nossa Senhora da Guadalupe Sussuania 3,
São Benedito Muricituba, Triângulo, Carnaubal, Carnaúba Tapuya Kariri, Campo do Pousa, Baixa do Cedro,
EFA Ibiapaba, Valparaiso, São João, Tianguá Santo Expedito, Espaço Roots e em Viçosa no bairo Santa Cecilia.

Uma noite com fogueira. Os espectadores estão agasalhados com coberturas grossas. Numa comunidade de agricultores perto do Tianguá assistimos o filme “O veneno está na mesa” de Silvio Tendler sobre o enorme uso de agrotóxicos. Os velhos da comunidade começaram a trabalhar nas roças com 7, 8 anos de idade. Um agricultor relata que sim, todos os dias ele pulveriza venenos e às vezes tem dor na cabeça. Se ele pede ao patrão para comprar analgésicos, o senhor dono de grandes propriedades nem responde. Outra mulher conta, que ela também já trabalhou como polinizadora nas monoculturas de maracujá, por falta de abelhas. Nas roças os caminhos dela se cruzaram com os dos homens com as bombas de agrotóxico. Após, os olhos dela ficavam vermelhos e ela tinha dores na cabeça mais foi trabalhar.

E os índios? No Nordeste existe um cenário de “invisibilidade”, até pouco tempo atrás não havia índios, quer dizer, não havia registro pela FUNAI. Hoje há 14 etnias registradas no estado do Ceará. Tive a honra de participar da inauguração de uma casa de sementes e da nova escola indiana da tribo Tapuya Kariri na Aldeia Carnaúbas, distrito de São Benedito. O pajé conta, que eles não podem mais viver de caça e da pesca, pois as florestas já foram desmatadas há uns anos e eles foram expulsos da terra. Até hoje existem conflitos territoriais dentro da comunidade: um grupo de pequenos proprietários não indígenas dizem ser “donos” da terra, alguns dos moradores se identificam como quilombolas. 

Toda a safra dos grandes e pequenos produtores da região é distribuído através de intermediários para a ceasa, o Toda a safra dos grandes e pequenos produtores da região é distribuída através de intermediários para o ceasa, o centro de distribuição de frutas e hortaliças. Por causa dessa centralização, os consumidores não conhecem mais os produtores, e vice-versa. As pessoas produzem e consomem sem fazer perguntas, ao invés de realizarem este processo de forma consciente. Se um intermediário compra, não importa para ele que os vegetais tenham sido tratados com agrotóxicos com apenas um dia de antecedência, embora isso seja contra as normas. Muitos agricultores não conhecem outros métodos agrícolas, o que significa que o uso de toxinas está aumentando. Ainda não é oferecido treinamento em relação aos métodos alternativos existentes nas escolas técnicas estaduais.  

Além da indústria agrícola comum há uma cena de agricultura orgânica bem estabelecida: Em Guaraçiaba, em São Benedito e na região do Viçosa há vários agricultores que produzem e vendem orgânicos nas feiras. A Fundação CEPEMA desempenha um papel importante para a comercialização: ela une os produtores e promove o intercâmbio de conhecimentos. A organização MIM, um movimento auto-organizado das mulheres da serra da Ibiapaba, atua ativamente na organização de um mercado semanal em Viçosa onde os produtores orgânicos das comunidades em volta vendem os seus produtos. Entre outras atividades, no espaço da rua, orienta mulheres sobre questões políticas e desigualdade de gênero. Outros produtores orgânicos geram renda através do cultivo de acerolas para um fabricante mundial de vitaminas C. Além disso, a escola autônoma EFA Ibiapaba oferece conteúdos alternativos e sistemas educacionais inovadores para novas práticas agroecológicas no futuro.  

Nos arredores do Tianguá fica o ponto de coleta de lixo da cidade. Catadores separam o que pode ser reciclado, a maior parte vai ser queimado sem filtro. Em colaboração com a Cáritas visitei a lixeira do município e à noite passei uma série de curtas-metragens para crianças nos bairros onde os catadores moravam.  

No pé da Serra Grande

Tururu Cine em Pires Ferreira, Vila Nayara, Contendas, Cabaceira, Olho D’ Água Velho, São Mateus, Ipueira da Cima, Carnaúba, Sabonete, Ângicos de baixo, Solidade e Alegria em parceria com o Instituto Antônio Conselheiro (Ceará, 2018)

O Tururu Cine fez diversas apresentações em pequenas comunidades agrícolas no sertão do Ceará em maio de 2018 em parceria com o Instituto Antônio Conselheiro, da cidade de Ipu. Foram desenvolvidas atividades com mestres artesãos sertanejos e famílias de agricultores rurais, nas comunidades de Pires Ferreira, Vila Nayara, Contendas,  Cabaceira, Olho D’ Água Velho e São Mateus. Uma rica experiência, com apresentação de cinema e vídeos, debate sobre o papel da mulher e os problemas ainda existentes da cultura machista, a questão da terra, as alternativas do biogás, a situação ambiental da plantação e a solução da agroecologia, além do uso e aproveitamento da água.

O Tururu alongou suas andanças em comunidades no sertão entorno de Ipu, realizando suas vivências nos lugares de Ipueira da Cima, Carnaúba, Sabonete, Ângicos de baixo, Solidade e Alegria. Nessas pequenas comunidades rurais, que contam entre 15 a 80 casas, localizadas no pé da serra ou próximas as linhas desativadas do trem, foram realizadas mobilizações porta a porta, com contato prévio, em conversas amigáveis e  descontraídas. Ali se convidava as famílias e se colhia as primeiras impressões, os fatos relevantes vivenciados pela comunidade. As atividades ocorriam no começo da noite, nas pequenas praças ou áreas externas das igrejas. O palco para a realização do cinema de rua é o diálogo comunitário. O traço comum nos depoimentos é que o cinema é uma arte que muitos nunca tiveram acesso. A viagem segue na Chapada da Ibiapaba… 

Entre os açudes de pentecostes

Agricultura Brasil Nordeste: Criador de gado no açude do assentamento Barra do Leme, Ceará 2018
Criador de gado no açude do assentamento Barra do Leme, Ceará 2018

Tururu Cine em Macacos, Ciclovida Barra do Leme, Pentecostas, Quixadá, Assentamento Joa e Ipu (Ceará, 2018)

Céu na Caatinga estrelado, 1 h de Fortaleza no município de Pentecosta. Por causa da seca extrema do semiárido os municípios da região estão entre os mais pobres do país. Aqui mora um povo sobrevivente em vários assentamentos que foram formados com apoio do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) para repartição de terras entre os camponeses, depois que as grandes fazendas do passado desapareceram. Devido às atividades madeireiras e a criação de gado, as terras são pobres, o pouco que cresce, desaparece rapidamente. O desmatamento para a produção de carvão ainda continua. O gado dos produtores familiares é livre, as poucas roças são cercadas. Anos atrás, o governo construiu um açude para o uso agrícola, so que a água e poluído e a água potável chega por meio de um caminhão. As terras secam mais e mais.

Um contraponto é o coletivo Ciclovida, um campo experimental de permacultura que faz parte do Assentamento Barra do Leme. Sanitários secos e técnicas para a reutilização de água, uma cisterna para coletar a água da chuva. Em baixo das hortas, cisternas subterrâneas servem como lençóis freáticos para que a água não adentrasse no solo arenoso. Bacias nas terras argilosas foram escavadas para também armazenar água. Arbustos e mato protegem a camada do solo e preservam sua umidade. Na horta mandala se cultivam legume e outras hortas também se espalham no meio da floresta. Tudo foi criado em trabalho comunitário e é compartilhado. Uma grande família de agricultores, artistas e ativistas.

Os iniciantes, Inácio e Ivania, sempre buscaram uma nova relação com a natureza. Em 2006 eles fizeram uma viagem de bicicleta pelo Brasil até a Argentina em busca de sementes crioulas. E assim se tornaram guardiões de sementes, pois estas devem pertencer à nós e não às corporações. Em um casa de barro de dois andares é onde o banco de sementes é guardado. As sementes são armazenadas em garrafas PET e sacos de papel. As frescas e espessas paredes de barro contém cinza e pimenta: “aqui, a gente usa lenha para cozinhar”; os pratos e panelas também são feitas de barro. Uma boa biblioteca conta com uma coleção de zines sobre autonomia, sócio-ecologia, sustentabilidade, agricultura, anti-capitalismo e com as marcas que muitos viajantes que deixaram aqui. Uma associação cultural local foi estabelecida como um centro comunitário. Teatros, shows e projetos artísticos servem para trocar conhecimentos.

Somos vítimas de um processo
Em meio ao fogo cruzado
De bomba é feito o progresso
É guerra pra todo lado
O lucro tem seu suporte
Na fabricação da morte

Excerto do Cordel O Processo da Cura Natural ou o Nascimento da Cura no Pacto com a Natureza

Manual Inácio do Nascimento

Nas imediações da Comunidade Ciclovida, existem mais duas hortas mandala que estão sendo iniciadas como hortas comunitárias. Liduina e Maria produzem e vendem milho, coentro, mamão, cebola, pimentão e maxixe para os vizinhos e à escola. 

Nos macacos, como a comunidade vizinha é chamada, as primeiras noites do cine Tururu acontecem em frente a igreja. Os porcos criados ao ar livre comem a pipoca que caiu no chão. Daqui, o Tururu Cine saiu no mês de maio de 2018 para sua viagem pelo interior do coração do Brasil.
Os primeiros passos dessa caravana experimental foram trilhados com os artistas Rana e Raul, do Circo Pirata. Várias apresentações de Cinema e Malabarismo circense aconteceram nas praças da cidade de Ipu e na comunidade Assentamento Joa. 
As vivências também tiveram lugar na Universidade Federal de Quixadá, com vídeos, poesias e curta-metragens feitos no Ceará, destaca-se entre as experimentações artísticas apresentadas, os vídeos (“Europa” de Leonardo Mouramateus,” Declarações de um dia azul”, de Alessandro Freitas; “Sem água é só mágoa” e “Cedro livre, Cedro vive” produzido por estudantes; o vídeo clipe “Rain” de Heron Rana, fotografias de Ruanna Felipe em Cafundó, e um registro do Barra do Leme e Pentecostes, com fotos de Nora, a guardiã desse ousado projeto. Essas caravanas culturais da Kombi #TururuCinemaSonor tem por objetivo fazer um grande trajeto pelo interior do Brasil, numa travessia de aventuras e sonhos pela alma brasileira.